Conto
em Prosa Escrito em Abril de 1994
Inspirado na vida e bigode de Charlie Chaplin
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 19 de Maio de 1994
Uma
lágrima no sorriso
Regarde,
ce que j’ai retrouvé: mon chapeau melon, ma canne,
ma petite moustache noire et ces grands
godillots.
est-ce
que tu te souviens? Oui! Charlot! Ah,
tu souris.
in Un
Dimanche Avec Charlie Chaplin,
Atenção,
silêncio! Luzes, câmara, acção!
Aos
cinco anos de idade pisava pela primeira vez os palcos sujos da Londres
industrial do fianl do século dezanove. Pela primeira vez a sério, porque a
verdade é que Charles Spencer, aliás Chaplin, praticamente veio ao mundo nas tábuas
frias do palco e por lá cresceu de bebé a miúdo. Foi logo na sua primeira
aparição que descobriu o dom de fazer rir os outros, quando apareceu no palco
a imitar a voz de sua mãe enquanto ela fazia uma mímica. Desde esse dia, o
mundo artístico e em especial a comédia nunca mais foram os mesmos.
Tudo
começa profissionalmente aos 19 anos. Influênciado pelo seu irmão Sydney,
Chaplin ingressa na Fred Karno’s Companies, ao serviço da qual faz duas tournées
á América. Delicia o público com toda a sua arte, desdobrando-se num sem-número
de personagens que se divertem, tropeçando e estatelando-se no palco, levando
com tartes na cara ou levantando a saia à donzela, em sketches
com muito de espontâneo. É no final de um desses espectáculos que Chaplin é
abordado por um certo «caça-talentos», de nome Mack Senett e que lhe dá a
assinar um contrato com a Keystone Film Company. A proposta é irrecusável, e
Chaplin acaba por passar por esse Inverno na cosmopolita Nova Iorque.
O
cinema, à altura mudo, acabou por se tornar a sua maior paixão. E foi à
frente das câmaras que logo começou a fazer rir multidões, fascinadas ainda
pelo deslumbrante invento dos irmãos Lumiére, estreando-se em 1914 no filme
Por Gagner Sa Vie, onde desempenha o papel de um jovem que se faz passar por um
lorde inglês, no intuito de se casar com a filha de um milionário. Só várias
centenas de metros de película depois é que nascerá a personagem que se vai
confundir com Charles Spencer até ao dia da sua morte, Charlot.
Umas
calças muitos largas, um casaco muito justo ao corpo, um chapéu de coco, a
bengala de cana, um par de gigantes sapatos rotos, e um pequeno mas farto
bigode. E Charlot estava criado, inspirado na figura dos pequenos imigrantes
ingleses e ridicularizando-os até à mais estridente gargalhada. O resto do
divertimento foi Chaplin buscá-lo às ternurentas expressões que, aqueles
olhos enormes combinavam com as grossas sobrancelhas e com o irrequieto bigode,
articuladas até ao mais simples dos sorrisos. Era o tempo das histórias sem
palavras, onde cada gesto tinha de dizer tudo, e Charlot era divino na arte de
tudo dizer sem dar uma palavra.
Hoje,
à distância da côr para o preto e branco, os infindáveis gags do Charlot parecem genuínos, feitos ao sabor da alma do actor,
puros. E, queiramos ou não, ficamos sempre prisioneiros do riso quando vemos os
filmes de Charlot. Hilariantemente inesquecíveis as tropelias de um Charlot
vestido de prisioneiro, de soldado, de artista de circo, de prospector de ouro,
de alegre apaixonado ou até de tirano ditador. Ninguém consegue ficar
indiferente ao ridículo apaixonado que oferece uma rosa à garota amada em As
Luzes da Cidade, ou ao esfomeado idiota que come os cordões do seu gasto
sapato como se fosse suculento esparguete em A
Quimera do Ouro. E a lágrima que é impossível impedir de rolar no nosso
rosto, quando assistimos à cúmplice amizade entre Charlot e um pobre miúdo de
rua em O Garoto de Charlot.
Charlot
está sempre lá, na mais insignificante das cenas, para nos fazer aflorar o
sorriso aos lábios e ao mesmo tempo soltar aquela lágrima pura, feita de emoção.
O melhor exemplo do homem que se faz Charlot para divertir os outros, mesmo
quando a alma lhe sangra por dentro, está nas Luzes da Ribalta.
Impresso
no celulóide ou por detrás da câmara, ele está sempre lá, eternamente
presente na contagiante gargalhada, imensa no rosto branco de olhos abertos ao
mundo, de bigode sorridente. E eis que o herói se volta e parte em direcção
ao horizonte, e já só conseguimos distinguir a ridícula fatiota, o andar
idiota, a bengala ondulando no ar... E ainda assim reconhecemo-lo!