Conto em Prosa Escrito em Janeiro de 1993
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 7 de Fevereiro de 1993 

    Sero(um)positivo

 Das suas órbitas vazias o
tempo sorria ironicamente
para mim, pobre mortal
condenado a ser como a areia
do deserto, poeira, nada mais
do que poeira.
Manuel Alegre in O Homem do País Azul

Parou no ponto final e voltou ao início da frase, relendo-a vagarosamente. Não passou dali. Encravou naquele amontoado de palavras, procurando ler para além delas. E ficou assim durante muito tempo, sem saber ao certo quanto, encaixando pedaços da sua vida naquelas palavras como se estivesse a juntar as peças de um puzzle.
  
Nunca foi muito bom nesse tipo de jogos, mas este era fácil, tão assustadoramente fácil que desistiu de o continuar. Fechou o livro bruscamente e atirou-o para cima da cama, esperando que se imobilizasse por completo para só então desviar o olhar. Apagou o pequeno candeeiro, cristalizado sobre o tampo da mesa de vidro a seu lado, e percorreu lassivamente a penumbra que invadiu o quarto, adivinhando as formas sóbrias dos poucos móveis que o ocupavam. Teve medo da escuridão e tornou a acender o candeeiro. O alarme estridente de um pequeno relógio começou a soar. Não ficou surpreendido por ouvi-lo pois havia muito que o esperava, e até já quase o dispensava, era capaz de se lhe antecipar.
  
Espreguiçou-se. Aconchegou o corpo ao veludo macio do sofá e estendeu um braço até à mesa. Agarrou num pequeno frasco de vidro e fez-lhe saltar a tampa de uma maneira, ao mesmo tempo, displicente e maquinal. Reconheceu-o, e odiou-se por isso. Verteu o frasco sobre a palma da mão, deixando cair uma só cápsula que, levou à boca e engoliu em seco. Daí a doze horas o relógio ia tocar novamente, e ele teria de tomar mais um comprimido de AZT mas, por agora queria voltar a esquecê-lo, voltar a viver sem ele.
  
Ficou ainda uns minutos largos a olhar o vazio, a pensar em nada de especial, simplesmente ali, presente mas sem sentido. Acabou por se fatigar e levantou-se, sentindo as pernas dormentes, demasiado frágeis, pouco seguras da sua função. Estava magro, sabia-o, quase só pele e osso como dizia a sua mãe, mas não sentia vontade de engordar por ser inestético e também porque não tinha fome, só sede, muita sede. Lembrou-se disso e bebeu um gole de água de uma garrafa que descobriu, jazendo em cima da cama, bem junto ao livro. Caminhou até ao Hi-Fi e passou os dedos por uma imensa fila de Cd’s. Escolheu um ao acaso e colocou-o no leitor. Ajustou o volume e esperou... Saiu-lhe Schubert, o que não lhe desagradou. Ouviu as pimeiras notas solenemente, movendo a mão direita ao sabor da música. Abriu a porta que dava para a varanda e estendeu um dos braços, para sentir a temperatura do exterior. Aumentou o volume da música, e saiu para a varanda.
  
A quente madrugada denunciava já um dia de intensa canícula. O calor desagradava-lhe, acentuava o seu lado doentio, repugnante, e isso incomodava-o, a si e aos outros. O sol não tardaria muito a romper o horizonte, trazendo consigo o burburinho da multidão de volta às ruas da cidade. Os últimos carros do lixo cumpriam pesadamente a sua via-sacra, os últimos e heróicos noctívagos entravam silenciosamente em casa, iluminavam-se as primeiras janelas nos prédios em frente. Tirou um cigarro do bolso e levou-o aos lábios, segurando-o ao de leve. Fez estalar o isqueiro e ficou a olhar a tímida chama, hesitando em queimar a ponta do cigarro.
  
«Suicídio». A palavra veio-lhe à cabeça de repente, sem querer, talvez porque fosse familiar, mesmo querida. O tratamento que não levava a lado nenhum, que servia apenas para silenciar a dor, e já nem isso conseguia. O choque de se saber portador da doença maldita. E as máscaras da incredulidade e medo dos seus amigos de sempre. A dor e a compaixão dos familiares. Tudo isso levou-o a abeirar-se do abismo mas, sem saber bem porquê, não mergulhou.
  
Deixou a chama do isqueiro extinguir-se, e desistiu do cigarro. O sol acabou por nascer entretanto, pondo fim a mais uma noite de lucidez, sem dormir. Deixou a varanda e entrou no quarto. Suspirou, cansado de tanta clausura. Saiu de casa, sem destino, ao acaso.
  
Ao entrar no comboio descobriu que queria ver o mar. Há tanto tempo que não chegava perto das ondas, que não ouvia o grasnar irritante das gaivotas, que não cheirava o odor salgado da água do mar. Ficou a viagem toda a imaginar a praia e a sua areia fina, o mar azul espalhando sobre a areia os restos disformes das conchas e dos búzios. A uma fase de euforia existencial e de forte apego à vida, logo no início, quando soube que estva condenado, seguiu-se uma outra, a actual, de macambuzismo plácido. E hoje, ao sair de casa,  escolheu romper essa placidez que os amigos olhavam de esguelha e ele próprio sentia já insuportável. Estava bem, ali, vendo as pessoas passar por ele sem lançarem um olhar recriminador, assentindo em sentarem-se ao seu lado, ignorantes, mas prontas a fugir espavoridas, correndo para bem longe, assim que soubessem o mal que transportava consigo. Levantou-se do banco e isolou-se a um canto da carruagem, ansioso por sair dali e ficar sozinho, sem ninguem à volta.
  
Assim que pôs o primeiro pé na areia da praia, correu disparado até sentir a água fria do mar bater-lhe nas pernas. Correu ao longo do infinito espelho de água, chapinhando violentamente com os pés até se cansar, mais depressa do que queria. Acabou por se sentar na areia, extenuado. Encheu as mãos com tantos grãos de areia quantos conseguiu, sentindo-os um a um e depois lançando-os ao sabor da brisa. Reviu-se num desses minúsculos grãos, insignificante aos olhos de Deus, um joguete nas nãos do destino.Olhou em redor. Só as gaivotas pareciam interessadas em partilhar o mesmo espaço com ele, apesar da indiferença mútua. Nuvens enormes escondiam o céu azul, a espaços toldando o sol como um grande chapéu de praia. Não apreciou muito este capricho da natureza mas, era impotente para mudá-lo.
  
Deitado de costas na areia parecia confundir-se com as dunas em volta, escondido do seu fim fatal. Lembrou-se do que lera ainda há pouco no seu quarto, aquela última frase que lhe ficara a latejar na cabeça. Voltou atrás, ao início do parágrafo. Era o herói da história, viajando pelo deserto de areia fina, e dando de caras com a Esfinge, ficando fascinado por ela. E o tempo sorrindo das suas órbitas, troçando dele, um mortal sem esperança de um dia viver imortal, à espera de se tornar pó, areia fina. Nada mais do que isso!