Conto
em Prosa Escrito em Setembro de 1993
Inspirado na vida de Manuel Teixeira Gomes
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 30 de Setembro de 1993
Retrato
a óleo
O teu erro mais
imperdoável é que tu tens o poder
e recusas-te a reinar. E eu respondi: «Falta-me, para
dirigir, a voz do leão.»
Nietzsche, in Assim Falava
Zaratustra II
Do
meu nome quero que fiquem apenas registadas nestas linhas as iniciais: M.O.
O que de resto me parece ser demais, isto porque o nome de um indivíduo é algo
de somenos importância para o definir como tal, porque resulta de um princípio
declaradamente a posteriori, estranho
à Natureza. Mas, será bom que me deixe de superfluidades, que se encarregariam
de levar-me por longos e enfadonhos caminhos, e permitam que vos chame a
atenção para o que a estas recônditas memórias dizem respeito.
A
amizade que me liga ao ilustre senhor Teixeira Gomes, o meu querido amigo
Manuel, companheiro abnegado de intensas tardes e tardios serões de tertúlia
política, remonta aos anos da luta nortenha contra a centralização do poder
real ao sul e que viria a descambar na anti-monarquia pura e simples. Os oito
anos, quase uma década, que nos separavam, pouco ou nada influíam
nos nossos ideais convergentes, muito embora deva esclarecer que o Manuel
pouca fé fazia nas minhas ideias naturalistas que apelidava de verdades
inconstantes, o que quer que isso fosse! Ainda assim, eu era quase como um irmão
mais velho, tido pelo pai do Manuel como um desencaminhador nato, dizia ele
disposto a destruir prematuramente a futura brilhante carreira de um político.
Pelo menos era isso que o velhote pensava de mim. E foi talvez a pensar no
futuro do filho que, um dia o velhote levou-o consigo para Lisboa, poucos dias
depois do regicídio de D.Carlos, para o imiscuir no meio político. A nossa
amizade teve então um dos momentos menos intensos, diria mesmo inexistentes, se
não fosse por uma ou outra carta que ainda trocámos.
Voltei
a estar pessoalmente com o Manuel em vésperas da sua partida para Londres, onde
iria desempenhar o prestigiante cargo de embaixador da ainda verde República
Portuguesa. Estava um homem maduro, marcado pelos ideais que haviam proclamado a
República de Outubro, apaixonadamente preocupado com as incursões monárquicas
que se levantavam a norte de Portugal, durante a quente Primavera de 1912.
Eu
tinha optado definitivamente pelas artes, a pintura para ser mais específico, o
que deixou o Manuel feliz por saber que cada um de nós fazia aquilo de que
verdadeiramente gostava. Acompanhei a carreira diplomática do Manuel pelos
jornais, e por um amigo comum que vivia em Londres. O algarvio de tez clara
deu-se bem por terras de Sua Majestade, e não fosse pelo característico clima
londrino, que mais tarde ou mais cedo acaba por fazer mossa, creio que não mais
voltaria à sua pátria.
Teixeira
Gomes regressou a Portugal aquando do assassínio de Sidónio Pais, seu amigo e
companheiro de luta. Reencontrei-o por um desses dias numa pastelaria da Baixa,
sozinho e pensativo. Confessou-me a sua preocupação com o rumo que a República
estava a tomar, inquieto com o cada vez mais real retorno da monarquia, e a
incompreensível falta de soluções dos republicanos, que no regresso de
Londres veio descobrir mais preocupados com o poder, na sua forma mais
decadente. Toda aquela cisão que infectava o republicanismo desde a euforia
inicial, com o surgimento de grupos liberais e democráticos digladiando-se pela
hegemonia suprema, parecia-lhe estranha ao verdadeiro sentido republicano e,
dizia, servia como uma luva de renda em mão de senhora prendada aos pró-monarquia.
A
nossa amizade voltou a renascer por esta altura e eu, por uns tempos, deixei-me
enredar pelos intricados fios da frágil República, influenciado pela amizade
que me ligava a um homem e não a um ideal político, como cedo vim a descobrir
quando vi alguns princípios naturalistas serem espezinhados e ridicularizados
por discursos supostamente republicanos, à portuguesa, está bom de ver.
Afastei-me discretamente. Continuava fiel aos meus ideais naturalistas e não
tencionava abdicar deles, nem por uma amizade. Não me sentia bem, perto de toda
a confusão mental que grassava nas élites intelectuais. Mantive-me afastado
dos ambientes republicanos, do Manuel, portanto.
A
situação interna agravava-se de dia para dia. Cada vez era maior a confusão
política e social. Assassínios, repressões, e insegurança geral eram o pão
nosso de cada dia. Entretanto, o Manuel seguia um caminho discreto, mas seguro,
dentro da ala democrática republicana, e vê a sua carreira dar um grande salto
quando o seu amigo António Maria da Silva é eleito chefe do governo.
Imediatamente o nome de Teixeira Gomes surge ventilado pelos corredores do
Partido Republicano, como o ideal para o lugar de Presidente da República, e daí
à candidatura efectiva foi um instante. Acabou por ser eleito no ano da graça
de 1923. Foi então a vez de ele se afastar de mim, inteligentemente.
Falei
muito pouco com ele durante o seu primeiro ano de liderança mas, pelo que fui
ouvindo comentar nos círculos políticos, o Manuel era um homem só, tido como
um fantoche nas mãos do Governo, agora de Álvaro de Castro e mais tarde de José
Domingues dos Santos, ambos apoiados pela facção intelectual de pendor
socialista conhecida como o grupo da Seara Nova. No início de 1925 fui chamado
ao Paço pelo Presidente Teixeira Gomes.
Havia
já muito tempo que não falava pessoalmente com ele, e foi talvez por issso que
a sua visão me chocou profundamente. O Manuel recebeu-me de manhã cedo, ainda
vestido com o robe de dormir. Parecia
doente mas, depressa constatei ser apenas cansaço. Estava mais magro, e com
olheiras profundas causadas por constantes insónias que o rosto já não
conseguia esconder. Nem parecia o Manuel de outros tempos.
Saí
a altas horas da noite, abandonando o palácio absorto em memórias de tempos
idos, saudosos. Voltei no dia seguinte, e no outro, e nos muitos que se
seguiram. Durante alguns meses mudei-me de telas e pincéis para junto do
Manuel. Estava encarregue de lhe pintar o retrato para a posteridade, conforme
sua vontade expressa. Devo confessar que nada me deu mais orgulho do que essa
devotada escolha do meu querido amigo. Tornar o seu rosto imortal foi para mim a
maior honra com que Deus me poderia ter agraciado. Durante todo esse tempo fomos
como irmãos gémeos, filhos da mesma mãe. Vivi com ele aquele ano negro, sofri
com ele a agonia dos dias que antecederam a sua renúncia ao cargo de chefe da
nação lusitana. O Manuel, o homem que sobreviveu ao golpe militar de direita,
o cidadão que assistia do alto do seu posto ao desmembrar de um povo, à
decapitação de uma sociedade republicana, havia-se tornado num céptico, numa
alma moribunda sem fé no futuro imediato do seu povo. Um presidente que, ao
assinar a sua carta de renúncia ao cargo para o qual tinha sido eleito,
confirmava o desprestígio das instituições da República mais instável na
história da pluralidade democrática europeia.
O
ano que se seguiu, 1926, veio confirmar a atitude de Teixeira Gomes, com o golpe
militar de Gomes da Costa, com o estabelecimento da ditadura militar e com a
censura prévia à imprensa. O Manuel não aguentou toda aquela pressão e
acabou por tomar a decisão que nos afastou para sempre, pelo menos fisicamente.
Comunicou-ma entre abraços e lágrimas de despedida, e partiu para o exílio em
Bougie, na Argélia, onde continua a viver há já alguns meses. Nas cartas que
me vai escrevendo diz estar feliz, deslumbrado com a imensa aridez dos desertos
africanos. Eu acabei esta madrugada o seu retrato. Gostava que ele estivesse
aqui para o ver...