Conto
em Prosa Escrito em Dezembro
de 1993
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 27 de
Janeiro de 1994
Rave
Alert
flutuando
onde se derrama
o nocturno plâncton
pela boca luminosa das
galáxias
e da nossa passagem
permanecerá
o
deslumbrante rumor dos
fogos sobre o mar
Al
Berto, «Rumor de fogos» in O Medo
Génesis
É
tudo muito misterioso. Um mistério que começa a esconder-se logo na
inquietante ignorância do tempo e do espaço certos, onde tudo vai acontecer,
num desejado segredo que apenas se revela momentos antes de uma estreita e recôndita
porta se fechar atrás de nós. E então...
Entramos,
e a luz natural extingue-se por completo. Tudo diante de nós é agora negro,
como um imenso vazio. Cambaleamos. Lançamos desesperadamente os braços no
vazio, tentando encontrar algo que nos segure, e conseguimos. O imenso vazio
negro parece moldar-se a cada passo que damos, movimentos corajosos, num
corredor invisível conduzindo-nos lentamente á velocidade da luz, em rota de
colisão com algo que ainda desconhecemos por completo. Ao nosso lado vão
fugindo estrelas de luz bizarra, finos traços de cor que rasgam o véu negro,
num primeiro instante ao de leve mas logo depois tão intensamente, como se um
estranho sol matizado acabasse de explodir lançando um pedaço de si em todas
as direcções.
O
centro de tudo é um indistinto espaço envolto numa inebriante penumbra, ao fim
do escuro corredor estelar. A atmosfera transforma-se a espaços numa irrequieta
amálgama de feixes de luz bicolor, invadida por enxames de pirilampos excitados
que mostram fugazmente estranhas figuras humanas de contornos pouco definidos,
de linhas irreais, espectros cibernéticos ou ravers
puros, refinados como cristais de açucar ao longo de incontáveis noites de
vaporosa e quente busca do doce prazer absoluto. São vultos vestidos pela
extravagância desmedida de um qualquer criador de haute-couture techno, afastados da razão nos traços do corpo, nas
cores que envergam nos tecidos sintéticos e na pele viva da face. Uma
infinitude de cores, que se desdobram em
tantos tons metálicos impossíveis de conceber inteligivelmente, criando uma
tela futurista que avnça no tempo mostrando no presente o que o amanhã
distante pode ser, sem preconceitos ou
verdades absolutas, simplesmente uma perspectiva
De algures na penumbra surgem, portentosos, os primeiros
gritos anunciando a mudança de estado.
Metamorphosis
Por todo o lado ecoam violentas palavras de ordem, buscando em cada
recanto uma resposta ao chamamento em ritmo de sonar, em cadência hipnótica,
que alguém decidiu lançar. E como as baleias, no fundo dos oceanos nadam
desesperadas ao encontro dos gritos de uma líder que as vai guiar para águas
mais quentes, também agora começam a afluir para o centro do espaço os
primeiros corpos a executar a assimilar a mensagem, que vaga já pelos neurónios
de cada um: Free your mind!
As
primeiras search-lights começam
incertas a romper a penumbra, descobrindo confusas cortinas de fumo que ondulam
como serpentinas de papel ao vento, por entre a massa escura de corpos que
continua a crescer do centro para as pontas, invertendo as leis da física
elementar. Dragon-lights brilham já
também ao acaso, pintando tudo de vermelho-vivo, de violeta-brilhante, de
amarelo queimado.
O
sonar intensifica-se de um momento para o outro, surpreendendo, despertando os
sentidos ainda inertes, aproximando-se do clímax. Está tudo a postos, a
contagem regressiva começa, é impossivel voltar atrás. As luzes entram todas
num corropio infernal como uma imagem acelerada até ao limite, cortando cada
molécula de matéria em milhões de pedaços, para subitamente se fundirem e o
bréu regressar mais negro que nunca. Um milésimo de segundo depois surge a
ordem final, berrada em incontáveis decibéis: Rave on!
Apotheosis
Toda
a luz e som disponíveis explodem ensurdecedoramente,
e parece que um cometa atravessa rasante sobre as nossas cabeças. À velocidade
de zilhões de bass-warps, a música
faz vibrar a partícula mais insensível em redor, desintegrando as que resistem
e levando consigo todas as outras com a força das marés, e a determinação de
uma forte batida sequenciada. Os corpos dos ravers
entregam-se à famosa anarquia techno em
movimentos deliciosos, contorcendo-se em poses extravagantes, loucos ao ritmo da
batida. O êxtase pode ser atingido logo ali, pouco depois do começo, mas há
que saber esperar, conter os impulsos sequiosos de prazer que despertam a cada
instante, buscar o prazer último e supremo, a maximum
overdrive.
Os
sons continuam longínquos, para lá
da nossa compreensão. Transportam-nos para lugares sempre diferentes, paisagens
desconhecidas. Os corpos desafiando a elementaridade do universo, transformando
a causa das coisas. E os delírios individuais começam a aflorar entre a massa
uniforme, cada um procurando atingir o seu orgasmo, indiferente aos que o
rodeiam. O orgasmo desejado e contido até ao limite sobrenatural dos sentidos
de cada um.
Ao
som de convidativas melodias hardcore,
os delírios orgasmáticos fluem ao longo da noite, entrecortados por laivos de
consciência, aproveitados para injectar energias artificiais. E o ambiente fica
então psicadélico. Vermelho, azul, verde, amarelo... O que se quiser que seja.
A música é trance, o ruído é
sagrado, os devaneios industriais são alimento para o som, food for woofers. É dificil de captar e depois conseguir transmitir
a essência de tudo o que se gera, impossível mesmo. Vive-se, tão somente.
A
massa de vida, ainda há pouco tão individualista, vira-se agora para si mesma,
forma-se num elo mental ao ritmo de um som devastador. O contributo comum para
que cada alma atinja um estado supremo, longe do entendimento. É o esforço
final para o prazer sem nexo. Infrutífero, porque tudo acaba antes do fim.
A
batida furiosa é forçada a aquietar-se, entra em lenta cadência até ficar
como o bater de um coração que descansa do esforço, como um sonar. O mesmo
sonar que tudo começou é o que vai terminar, consumindo-se aos poucos...
lentamente... até que... se extingue por completo.
A
luz artificial também morre devagar, dolorosamente como o arder da vela, e
depois a escuridão cega é total, por momentos...
O
sol incandescente incendeia o oxigénio saturado, e tudo termina ali.
Because
behind the rave pantomime
and the mask hysteria, this is music
for
a different generation(...)
If
you don’t understand it, you don’t deserve to.
Andrew
Harrison, in Select Magazine