Conto
em Prosa Escrito em Novembro de 1993
Inspirado nas mulheres de Picasso
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 2 de Dezembro de 1993
As mulheres de Picasso
Tous les
visages ou les nus que j’ai faits d’elles
sont en realité
des portraits de nous deux ensemble,
avec nos humeurs
du moment.
Pablo Picasso in Un Diamanche Avec
Picasso
Nas
terras quentes e férteis da Andaluzia nasce, dezanove anos antes do virar do século,
uma das mais brilhantes almas da arte de pintar. Pablo Ruiz Picasso, ou tão
simplesmente Picasso o miúdo pintor, como ele próprio se retratou, é muito
mais que um hábil mestre na pintura, é bastante mais que um cubista. O dom
divino com que foi abençoado vai muito para além dos períodos azul ou rosa,
ou da arte negra. Picasso é apenas um homeme cujas mãos, hábeis marionetas do
seu génio, sabem falar para a tela, de cerâmica ou de metal, todo o sentimento
que pulsa em cada célula do seu corpo. Um homem que em criança vivia no mundo
da lua, preso entre o intelecto febril e a irrequieta criancice, criando
castelos de reis faustosos onde brincava deliciado e que daí a pouco demolia
para depressa criar um outro. O miúdo que comia de lápis na mão, que
adormecia a pintar uma imensidão de cores e tons, um dia viu-se homem. Não a
seus olhos, que escondiam a alma de criança, mas aos olhos dos outros homens.
O
corpo nú, o toiro e os homens da arena, as crianças e os arlequins, o obscuro,
e as mulheres. A versatilidade dos temas picassianos disfarça a sua preferência
mais assumida, o corpo feminino. O exemplo notável desta paixão é As
Mulheres de Alger, onde Picasso se inspira em Delacroix, não para o copiar
mas para o modernizar, refazendo-o á sua maneira, imortalizando-o. As formas
nuas, quase sempre femininas, que Picasso leva à tela do seu cavalete pintam um
mundo puro, uma sociedade livre de preconceitos moralistas e reduzida ao princípio
de tudo, a pureza da virgindade maternal. Instalado na volúpia sã das terras
de França, e reconhecidamente inspirado por Matisse, o velho mestre Picasso
fascina-se a cada instante pelo nú feminino até à devoção. Em cada pintura
tenta captar o seu reflexo, a sua forma, nas curvas do corpo que pinta. E essas
formas, ao olhar desatento, assustadoras, transformam-se em linhas de extrema
beleza e sentimento. As preponderâncias aberrantes que a cada passo se
vislumbram, são as mágoas ou as alegrias que o corpo nú à sua frente deixa
ver, aos olhos do pintor. E é assim com todas as mulheres de Picasso...
A
ainda muito jovem Marie-Thérèse é a sua grande musa, a mulher que vai gerar
no seu ventre Maya, a única filha de Picasso, a sua mais preciosa mulher. De
Marie-Thérèse fez inúmeros retratos, como se tentasse captar todos os gestos
dessa mãe, buscando a sua essência, vincando cada um dos seus movimentos como
modelos a serem personificados por cada mulher. Num desses infinitos retratos
Picasso mostra-nos uma mulher feliz, descansando plácidamente sobre uma cheia e
quente poltrona. O seu corpo opulento de mãe jaz cheio de vida, e os seus braços
parecem segurar um filho sobre o regaço. Um dos seios está meio destapado,
como se o bebé tivesse mamado ainda há pouco. Picasso pintou a mãe no sentido
mais terno e maternal, a mulher delicada e extremosa, de porte sempre altivo e
muito belo. Envolta em indefiníveis tonalidades que são vida, Marie-Thérèse
é isso mesmo, é vida, é a semente que germina serenamente sob o calor do sol
primaveril.
Dora
Maar também é muio jovem quando o seu destino se cruza com Picasso. A relação
dos dois vive muito à custa da paixão de ambos pelas artes visuais, a pintura
e a fotografia, e certamente por isso não foi tão frutuosa como outras. Dona
Maar também era bastante diferente das outrsa mulheres que Picasso amou. A sua
fragilidade emocional e a sua impulsividade não permitiam o fácil desabrochar
da maternidade, que tanto fascinava o pintor. Num retrato de rosto, Picasso põe
a nú o carácter cobarde da personalidade de Dona Maar, mostrando uma mulher
bonita cujo rosto se desfigura perante o medo de alguma coisa que não se
percebe o que é, medo talvez de si própria. Está nervosa e chora, chora muito
e por qualquer motivo. É quase errado chamar-lhe mulher, quando mais parece uma
criança, um ser demasiado infantil para viver num mundo de adultos, de
obrigantes responsabilidades que não tem vontade de observar, e a marca de tudo
isto é o laço colorido sobre os seus longos cabelos. A criança infeliz chora
e ao fundo Picasso pintou o motivo desse choro, dessa felicidade, uma janela com
grades. Dora Maar está presa num mundo de onde é impossível escapar, o mundo
dos adultos.
A
última companheira de Picasso é Jacqueline Roque, a mulher perfeita para
acompanhar o velho mestre nos seus últimos vagidos. O espírito inquieto
traduz-se na gravidade da sua postura e do seu olhar, que o pintor consegue
fixar num dos retratos de Jacqueline. Ela está sentada no chão, com as costas
unidas à parede fria, de joelhos junto ao peito, os dedos cruzados uns nos
outros. Parece meditar, de olhar no infinito, segura, o pescoço entesado. Está
só, consentidamente solitária, sentada a um canto de uma varanda, protegida na
sombra, e o céu azul ao fundo. E lá dentro, na confusão do atelier, o mestre pinta sossegadamente a sua próxima obra-prima.
Jacqueline é a mulher sóbria e ponderada, a mulher que se afasta do pintor
quando sente que algo lhe vai na alma e que dele se aproxima, nos momentos em
que a fera se aquieta. O rosto companheiro, os gestos inteligentes, a amizade
gratuita, é tudo o que o velho Picasso necessita na sua velhice. Ela é a mão
quente e serena, a perfeita para segurar a fria mão do pintor no seu leito de
morte.
Picasso
pintou até ao dia da sua morte, e morreu com 91 anos.