Conto em Prosa Escrito em Novembro de 1992
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 13 de Dezembro de 1992 

   Oráculo

 Piedoso, Eneias encaminha-se para um monte fronteiro, onde Apolo tem o seu templo,
junto da gruta imensa em que a sibila recebe dos deuses
a inspiração de proféticas sentenças e da difícil ciência do futuro.
Vigílio, in Eneida

  

I

   Estando Zeus, o deus supremo, e a sua mulher Hera, rainha dos céus, sentados em seus tronos no Olimpo, apareceu-lhes Hermes, o mensageiro dos deuses e protector dos viajantes, procurando por Apolo. Zeus, visivelmente incomodado com a presença maçadora de Hermes, mandou que este fosse às florestas da Tessália procurar Artemisa, a deuas da caça e irmã de Apolo, para que o ajudasse. Hermes saiu a procurar Artemisa, deixando o Olimpo agastado com a impaciência de Zeus.
  
Artemisa caçava nas densas florestas da Tessália em companhia das suas ninfas e de Afrodite, a deusa do amor, quando surgiu Hermes buscando a sua ajuda. Hermes explicou-lhe que havia já procurado Apolo por todo o Egeu e não o tinha encontrado. Contou-lhe que intercedia por um terreno seu protegido, um jovem viajante vindo de muito longe, que procurava a ajuda e os conselhos do deus Apolo, no seu óraculo de Delfos. Artemisa escutou Hermes com interesse e depois mandou que uma das suas ninfas fosse à procura do seu irmão Apolo, que sabia estar numa das muitas escolas de pensamento e da meditação de Atenas. Sossegou Hermes e convidou-o a participar numa das suas caçadas.

  

II

A dura e poeirenta estrada de asfalto terminava abruptamente num pequeno largo de terra, a meio de uma íngreme subida, no coração de um verde vale. Dali para a frente, o caminho era de rugosa terra, estreito e subindo cada vez mais, serpenteando por entre oliveiras e vinhas, quase impossível de fazer de carro. Sem o necessário espírito aventureiro e destemido, vi-me obrigado a estacionar o carrro que tinha alugado em Atenas, muni-me de uma garrafa de água e da máquina fotográfica, e continuei a pé.
  
Caminhava lentamente, refugiando-me na sombra das árvores para me proteger do sol quente de Agosto, mês consagrado a Apolo, também conhecido por ser o deus do sol, e eu ali a caminho do seu santuário mais famoso, o de Delfos. Tudo isto soava-me a harmonia perfeita, um bom augúrio.
  
A tarde ia já no seu auge, quente e lassa, tornando quase imperceptível a famosa brisa que subia o vale, vinda das frescas águas do golfo de Corinto. O silêncio era absoluto, por vezes incomodativo mas, obrigatoriamente sagrado. As excursões de turistas tinham passado ali de manhã, e agora as únicas criaturas que vislumbrava eram um ou outro carneiro, pastando ao sabor do vento pelas encostas do vale. Comecei a sentir gotas de suor rolarem ao longo das minhas costas, encharcando a camisa, desconfortável.
  
Subitamente o caminho de terra terminou dando lugar a uma imperfeita via, feita de pequenos rectângulos de pedra clara. A via seguia a direito, matematicamente a direito, até ao santuário cujas deslumbrantes ruínas despontavam por detrás de abundante vegetação. Apressei o passo, quase correndo, sentindo o coração acelerar o seu ritmo, excitado. Entrava finalmente no santuário de Delfos, famoso pelo seu mítico oráculo de Apolo, passando sob um belo pórtico ou o que restava dele.
  
Parei respeitosamente, como se entrasse numa igreja, observando e admirando em volta. Subi a uma pequena coluna e, de máquina fotográfica em punho, comecei a fixar todas as imagens ao meu redor. Nos tempos clássicos aquele devia ser um dos mais belos santuários gregos pois, ainda hoje, apesar de severamente castigado pelos vulgares terramotos do deus Posídon, conserva ainda muita da sua magnificência e beleza, até mesmo da sua magia. As bonitas ruínas do teatro, onde em tempos se mostrou arte. O espectacular esqueleto do que em tempos foi um bonito templo circular de vinte imponentes, dos quais já só existem pequenos tocos. E o que resta do assombroso templo de Apolo, com o seu chão de lisas lajes de mármore rosado e as suas grossas colunas restauradas. Estas são só algumas das imagens que me ficam na retina, entre tantas outras ruínas de monumentos, de pórticos, de tesouros e de colunas que jazem à minha volta.

  

III 

Andava o deus Apolo em companhia de Atena, deusa da guerra mas também protectora da sabedoria e da razão, espalhando os seus poderes pelos templos atenienses do saber e do ensino, quando os descobriu a ninfa companheira de Artemisa. Avisado pela ninfa da vontade de sua irmã em falar consigo, Apolo despediu-se de Atena e partiu para o reino de Artemisa.
  
Chegado ás florestas da Tessália, não tardou Apolo a encontrar sua irmã. Surpreendeu-a em companhia de Afrodite e Hermes, nos prazeres do amor e da caça. Hermes, vendo Apolo, aproximou-se deste e pediu-lhe que corresse a Delfos, onde alguém buscava a sua sabedoria. Assim fez Apolo, surpreso por ainda haver alguém que acreditava no poder do seu oráculo ao fim de tanto tempo. Era tão raro ver uma fervorosa fé na existência e no poder dos deuses do Olimpo.

  

IV

Caminhei até ao templo de Apolo. Sentei-me defronte para o lugar onde se diz em tempos remotos se erguia o oráculo, esperando que a Pítia, a sacerdotisa, aparecesse. Mas, não apareceu. É claro que não apareceu, nem ia aparecer, já não há sacerdotisas. Por momentos desesperei, mas algo ajudou a que acreditasse. Tinha vindo a Delfos para ouvir as profecias de Apolo, e se não era através da Pítia quem sabe não seria em sonhos,  que o deus se ia revelar.
  
O jovem deus Apolo sempre foi reconhecido por ser apaixonado e poderoso, deus do bem e do belo, da sabedoria e do raciocínio, do pensamento e da meditação. Servia-se dos seus oráculos para responder a quem ele recorria, aventando sobre o futuro, sábio e poderoso. E agora, era eu que a ele procurava buscando respostas para o meu futuro. Procurava energias para continuar, queria passar por cima dos erros e desilusões, acreditando com fé em Apolo, ele que era um deus jovem, um exemplo da força juvenil.
  
Foi então que vi o sol brilhar como nunca, quase ferindo os olhos. Era como se o seu deus estivesse ali, dando-lhe mais força, mais brilho. Vi um bando de águias descer das escarpas, planando no céu azul como se estivessem a escoltar alguém, um Deus. Apolo tinha vindo, o deus Apolo ia falar comigo. Fechei os olhos, e sonhei!

  

V

 «Agora, vai.», disse o deus Apolo. Ainda lhe agradeci antes de ele desaparecer e, depois, acordei. Levantei-me do chão. Olhei em redor, respirando fundo. Caminhei de volta para o carro, relutante. No céu, o sol do deus Apolo dava lugar à lua de sua irmã Artemisa...