Conto em Prosa Escrito em Fevereiro de 1994
Re:Evolution
Não
sei quem primeiro observou que um macaco
a bater ao acaso nas teclas de uma máquina de escrever,
se lhe dessem tempo suficiente,
poderia
escrever todas as obras de Shakespeare.
Richard Dawkins, in O Relojoeiro
Cego
alvéolos
de sémen ardem... os sexos
em combustão no seio molhado de nocturnas conchas
rostos incendiados flutuam na frágil espessura da alba
regressam lentos à outra margem diluída na bruma
inacessível
Al
Berto, in Doze Moradas de Silêncio
1.
Scientas Dub
A
majestosa explosão estelar de uma anã branca distante manchava de feixes
luminosos, e tonalidades nucleares vivas, a instável superfície da protostrela
ainda em precoce evolução. Formas estranhas cresciam por entre a poeira
condensada que vagueava incerta ao sabor das frágeis massas de ar
incandescente, silhuetas de luz brilhante que se diluíam em breves instantes
para se voltarem a criar logo depois. Um intenso silvo metálico varria tudo,
criando uma enebriante confusão criadora. Era como uma melodia harmoniosa,
mesmo irritante, que difundia um esperado chamamento a todas as moléculas vivas
dispersas na névoa, um sonar sibilante convidando à fundição dos seres. A
ensurdecedora sonoridade, ao mesmo tempo bassa e metálica, parecendo desperta
pela alvez cintilante dos feixes de luz exterior, evoluía para um novo estado
molecular crescente ou distinto. Matéria e anti-matéria despertavam de um sono
longo começando a colidir discretamente sob a névoa, mas ao invés de se
aniquilarem mutúamente invertiam o sentido da equação e retiam a mesma
energia que as devia destruír. Algo se estava pois a criar, lentamente, ao
ritmo do sonar que não parava de ecoar. Nuvens negras de poeiras moléculares
ionizadas brotavam lodosas da superfície, erguendo-se na atmosfera crepitante
como frondosas árvores, cobrindo tudo com um véu negro violentamente
trespassado por láminas de luz, agora bizarramente multicolor. O cenário
transmutava-se a uma velocidade estonteante como a visão ultra-acelerada de um
pôr do sol. E era impossível dispensar sentidos para olhar tudo. Em breve tudo
estaria completo, e então tudo começaria de facto, uma entidade fetal ia
nascer, viver e morrer, ali, numa indistinta protostrela de um qualquer
quadrante do universo infinito à razão atomista, no gélido e cego espaço
sideral onde todos os quasars brilham. Ali, entre um falso céu púrpura cegante
onde silhuetas imponentes de brutais dragões aladas planavam, e um imenso lago
flamejante sodomizado por grossas colunas lodosas e negras onde reinavam sereias
divinas trazidas de tempos remotos. Como um girino fértil que deixa os seus
ovos gelatinosamente fertilizados num charco junto à margem do riacho, também
a providência cósmica ali permitiu que os átomos entesados de vida largassem
óvulos e esperma
do ser, a matéria destinada à evolução de um novo ente. Um turbilhão
avassalador misturava todas as moléculas da protostrela como numa gigantesca
centrifugadora, reduzindo todos os ingredientes aos seus compostos essenciais,
dissolvendo-os uma nas outras, criando um colorido e delicioso batido. E há
mesmo aberrantes morangos azuis que dançam no ar, entre melosas natas de leite
verde que escorrem por todo o lado desfazendo-se contra descomunais gomos de
laranja. Ali, naquele pedaço vivo do universo, o batido toma gosto. Não tarda
muito e neste mundo irreal de fadas e gnomos, sereias e dragões, de principes e
dulcineias, a coabitação impossível de frutos silvestres e sonares cadênciados
vai criar, inventar uma nova evolução. A re-evolução: o fim último dos
deuses, ou dos demónios, da criação aguarda apenas a ordem final, o grito que
a vai desabrochar como o narciso que apenas suspira pelo brilho do sol para lhe
abrir as suas pétalas, e deixar-se copular pela luz da vida. A nova entidade
desta protostrela, como um filho do sol, ganha ténues formas, sorve o primeiro
sopro, inspira e... expira. Nasceu.
2.The
Shamen
O
pulsar inquieto do sonar sossegou. Desperta uma silenciosa melodia. Desenha-se
uma profusão de faíscantes linhas paralelas, riscos de lápis traçando um
espaço uniforme e isotrópico, Euclideano. Duas texturas gémeas de nervuras
vermelhas brilhantes como os fragmentos de uma supernova, centram-se geométricamente
no imenso espaço Euclideano que irradia agora uma bucólica luz verde metálica.
Ambos os seres assumem uma delicada imobilidade, ausentes e solitários.
Esperam. São idênticos, mas não independentes. Um excitante silêncio monacal
ecoa no espaço infinito. A melodia parece caminhar para o fim, silenciosa também...
E o grito infernal de um bando de abutres incendeia tudo em redor, e há
finalmente música no ar. Despertos, os corpos dos dois seres dançam, dançam
mesmo. Afastados um do outro tocam-se através do espaço homogéneo onde
evoluem,num ritual de deslumbrado prazer. Amam-se ao doce sabor da música
cibernética, e as formas inalteradas apesar do intenso rodar que desenvolvem, e
as nervuras vibrantes de emoção em cada beijo que trocam. E o brilho húmido
do suor escorre em cada hipérbole, e podem-se escutar dolorosos gemidos a
estalar como ondas na areia plana da praia. Corpos femininos girando simétricos
um sobre o outro em estonteantes movimentos de sedução, rígidos à gentil
aspereza orvalhal das línguas, rendidos ao suave riscar das linhas da pele na
pele. Os seios brancos e perfeitos, insuflados pelo tempestuoso vento quente da
respiração, erectos como pêlos de um sexo dedicado. E todos os seres alados
desse lugar se juntam
agora, em redor das labaredas da fogo cantando o derramado néctar de
Baco. Rolam
doces frutos vermelhos no chão, e flores leitosas bordam o manto de seda.
Unem-se os dois seres. Fundem-se num só. O ser último da re-evolução. Tudo
é eterno. Explodem os sóis e as estrelas.
O universo inflama-se e todas as moléculas vibram com o crepitar dos
fogos. São lábios que se tocam, seios que se esmagam, dedos que se entrelaçam,
fluídos que se trocam em segredo. E já não há gemidos, gestos bruscos ou emoções
desenfreadas. Emana uma deliciosa paz serena do prazer absoluto no corpo uno. A
música permanece agora em ritmo de transe, tomando o arrebatamento e
prolongando-o em êxtase indefinidamente, até ao fim...
3.Phorever
Dub
E
dos lodos sombrios nascem flores, cristais coloridos, girinos imperfeitos, matemáticas
e geometrias, sentimentos e
ideais.