Conto em Prosa Escrito em Junho de 1993
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 12 de Agosto de 1993 

    O bungalow

Dedicado à Filomena «Mámi»

 São dez ou doze pessoas assustadas -um grupo.
Sentam-se em redor de um saco cheio de medos:
o medo da solidão, o medo do passado, do presente e do futuro.

José Saramago, «O grupo» in Deste Mundo e do Outro.
(Todas as citações são dessa obra.)

   Nasceu por acaso, sem pretensões de ser uma sociedade secreta ou sequer de se tornar em mais uma dessas fundações, politizadas e ideologicamente castradas. Uma tarde, juntaram-se todos em casa de um deles e assim continuaram a fazer, todas as tardes. Eram colegas de turma na escola do bairro onde, sob o frio matinal, dentro de exíguas salas descobriam, sonolentos, as grandes correntes mentais do passado e do presente, as filosofias pastosas e sempre sem sentido ás primeiras horas do dia. O fim da manhã era festejado por todos como se da hora da libertação se tratasse.
  
Não havia hora certa para se juntarem, iam chegando a conta-gotas, conforme as disposições de cada um, mas ninguém faltava. a tarde começava invariávelmente ao som de música, o que ajudava a embriagar o ambiente, e havia sempre alguém que trazia um filme para ver, e no fim julgar, discutir. Muitas desses debates eram sem nexo, confusas paletas de cores, simples misturas de opiniões sempre tão contrárias que colidiam umas com as outras, lançando cortantes estilhaços em todos os orgulhos, em cada amor-próprio. Mas, os cortes eram pouco profundos, curavam-se logo ali num gole amargo de cerveja partilhado, raivas e ódios mastigados até à destruição completa entre um punhado de amendoins.

 E são inteligentes.(...) Têm no bolso do casaco
ou na malinha de mão as trinta e seis maneiras
radicais de transformar o universo próximo ou remoto -mas
nenhum deles transformou a sua pequena vida pessoal e,
em alguns casos, infelizmente transmitida.

 A vida acontecia ali, discutia-se, alegrava-se ao sabor de alguma defesa mais veemente. O maço de cigarros ia passando de mão em mão, cada vez mais vazio, a prova material de liberdade individual. A solidão não entrava, nunca. Afundados nos enormes sofás vermelho-púrpura, envoltos em laivos de realeza, trocavam sentimentos e descobriam amizades mais profundas que a raiz da vida. E não poucas vezes iam longe de mais.
  
Havia dias em que o grupo era somente uma congregação masculina. Eram os dias em que a libido dos rapazes expulsava as raparigas da depravação macha, as famosas tardes da sexualidade desperta pela cadência de imagens coloridas que emanavam de um pequeno ecrã. Tardes quentes e húmidas, tardes tropicais que cedo chegavam ao fim. Então, respirava-se fundo, engolia-se a saliva guardada durante tanto tempo, e buscava-se a causa das coisas: discernir o melhor do pior, enaltecer o inovador e desmascarar o banal, discutir técnicas e seus mestres.
  
Também elas tinham as suas tardes de «croché», discretas no sentido e na forma, como só elas sabem fazer. Nessas reuniões de sofá, entre uns biscoitos de manteiga e uma chávena de chá preto, versava-se sobre o binómio amor-sexo. Faziam-se desfilar as virtudes e os defeitos do platonismo, no que ao amor dizia respeito.
  
Eram tardes faccionadas, assumidas como contributos para a homogeneidade do todo, assim se pensava.

 O grupo agita-se, fermenta, organiza, tem ideias,
discute, põe, dispõe e contrapõe, lança-se em intermináveis conversas
durante, as quais o mundo é desfeito e outra vez refeito(...).

Os dias acabavam quase todos no bungalow da líder espiritual do grupo. A cara bonita de mulata, o cabelo espetado em sinal de autoridade, o sorriso confiante foram tudo pontos em seu favor. Líder dos egos pessoais de cada membro, alma das almas.
  
Com o sol no horizonte, incendiando de tonalidades vivas o cinzento frio do bungalow, preparavam-se as noites. Ao cimo das escadas em caracol, entre longos arcos rectos de betão armadao, junto à varanda, debruçados sobre o parapeito de ferro forjado ou, sentados no maple de cimento, faziam-se planos que nem sempre incluíam todos. Eram decisões premonitórias que ninguém sequer contestava. Os imensos cigarros acesos pareciam então enxames de pirilampos, dançando em movimentos lânguidos. Discutia-se também a rua lá em baixo, quem passava no passeio branco. Ria-se muito, de tudo e de nada, have fun my friend.

 Cada qual apresenta então a sua fraqueza e
espera-se que de 12 debilidades nasça uma força.
O grupo tem destas ilusões.

 Um dia contudo chegou o despertar das consciências de cada um. A harmonia, que a tão viva força se tentava conservar desde o início, começou a estalar. Cada alma tinha o seu destino escolhido, e muitos desses destinos haviam sido marcados pelo grupo nas quentes tardes das viagens ao futuro. Mas o destino do grupo não passava pelas mãos de cada um, para isso havia a tal força superior que tanto discutiram até à exaustão. O grupo teve de morrer.
  
A morte é algo de imutável, felizmente talvez. Como em tudo, o fim começou a ser traçado desde o primeiro sopro, por mais desvios que intencionalmente se tivessem feito. Nunca ninguém o quis discutir, nunca veio à mesa.
  
Hoje há saudades em cada um, há solidão que não se consegue esconder. Um dia vão juntar-se decerto, para lembrar que são velhos dinossáuros de mentes esvaziadas, bichos rebeldes aculturados pela mentalidade governante, acompanhados pelas suas caras-metades e os rebentos a tiracolo. Tudo o que haviam jurado não deixar nascer, não procurar, não aceitar e nem sequer ouvir.
  
Serão só memórias recônditas, esmagadas no fundo da mente escura e fria de adultos, insufladas de novo para gáudio de um sentimento mesquinho.
  
Os amigos de alguém ou alguma coisa que existiu em tempos, de que já só restam leves memórias que se partem em achas para alimentar o fogo quente da saudade, nas noites frias de solidão.

(...), o medo está ao alcance da mão, ao alcance do grupo,
porque nada daquilo vai durar, porque o grupo segrega
da sua contradição o veneno que o destruirá
.