Conto em Prosa Escrito em Outubro de 1992
Inspirado na revolta estudantil em Pequim-Praça Tiananmen, na Primavera de 1989
Publicado no Suplemento DNJovem do Diário de Notícias, em 15 de Novembro de 1992 

    Bèi*

O sol morno da Primavera desaparecia para lá dos míticos contornos da Cidade Proibida. Zhang Kai bebeu um segundo gole de água da garrafa que lhe tinha chegado ás mãos, e passou-a ao companheiro que estava a seu lado. Aconchegou-se no blusão, olhou o crepúsculo uma última vez e, depois, fechou os olhos cansados. Era mais um dia que se esgotava, o seu quinto dia de greve de fome ou talvez o sexto, já não sabia, há muito que tinha perdido a noção do tempo, mas isso pouco importava.
  
Podia ainda sentir o gosto, agora amargo, do pedaço de chocolate que chupara nessa manhã. O resto do seu corpo continuava inerte, dormente, ali sentado no meio da praça, perto do mausoléu de Mao, como que aguardando a hora de morrer. Sentiu-se à beira do desespero, no que lhe pareceu um último apelo traiçoeiro da sua razão, mas resistiu, recusando-se sequer ponderar a abandonar os companheiros de luta, certo de que também eles se debatiam dolorosamente para continuar até ao fim, fosse ele qual fosse. Cerrou os olhos com força silenciando a razão, e dando voz ás memórias.
  
Viu-se subitamente na aldeia dos avós paternos, uma modesta comuna na província de Shanxi dissimulada entre os vastos campos de milho e trigo. O enorme pátio onde tantas vezes brincou, defronte da casa de paredes de lama e telhado de colmo, em que viveu até ao início da adolescência. Vislumbrou por instantes os ténues traços, rudes e austeros, de seu pai, tentando sofregamente juntá-los mas sem o conseguir. Tinha perdido o pai muito cedo, na construção de um reservatório, o que desde cedo o revoltava muito contra o sistema comunista, que se servia dos homens como de tecnologia mecânica.
  
Tinha ainda bem presentes os tempos duros que se seguiram à fatalidade, quando a sua mãe decidiu pegar nele e partir para Beijing. Nunca mais voltou a ver a avó, e a ouvir as suas divertidas histórias, a escutar os seus conselhos carregados de valores comunistas que ele, já então, julgava irreais e ultrapassados. A mãe trabalhava numa «fábrica modelo do povo», como se podia ler à entrada do edificio em grossas letras de bronze. Odiava aquela fábrica, que lhe roubava a mãe e a afastava de si, em favor da produção massiva. Só a via à noite, quando já estava deitado na cama, e ela o vinha beijar, cansada. Mas, foi com este esforço de sua mãe que, um dia acabou por ingressar na universidade do povo para orgulho dela, e exaltação do partido.
  
Então, a sua vida mudou. Foi lá que aprendeu a pensar com a sua própria cabeça, apesar da influência que o partido espalhava por todos os recantos dos edificios. Ignorava as enormes imagens de Mao e Deng Xiaoping colocadas nas salas de estudo. Uniu-se a um grupo de colegas estudantes, alguns dos quais estrangeiros, e começaram a publicar um jornal universitário de opinião e crítica, e que depressa passou à clandestinidade.
  
Nos artigos que escrevia para o jornal denunciava a hipocrisia dos militantes do Partido Comunista, a sua politica retrógada e as imposições que faziam ao proletariado. Irritava-o o nacionalismo que se propagandeava por todo o lado, a alergia xenofóbica a tudo o que não é chinês; a prática recente de governar através de uma elite ideologicamente qualificada, a nivel local e nacional, e as últimas restrições ao culto religioso que culminaram com o fecho das igrejas cristãs, classificando-as de relíquias antipatrióticas e imperialistas.
  
Sentiu na pele a asquerosa subdivisão da sociedade que o partido preconizava: com o partido por núcleo de uma aliança de operários e camponeses, e no exterior da aliança o grupo intermédio, cuja lealdade pode ser ganha tanto pela aliança como pelo «inimigo», o último anel da aliança. Gostava de passar horas a ouvir os estudantes estrangeiros falarem da democracia, dos direitos humanos, da liberdade de expressão e pluralidade de informação, que se viviam nas suas terras do outro lado da muralha, da grande e intransponível Muralha da China. Recusou sempre participar em manifestações colectivas desportivas, culturais ou politícas que habitualmente o governo encorajava e promovia, autênticas sessões colectivas de lavagem ao cérebro.
  
Os últimos meses foram de luta constante, de mobilização e agitação das massas estudantis contra os abusos do regime e a corrupção dos altos dignatários do partido. Ainda assim, tentando proteger a mãe, recusou fazer parte da linha da frente nos protestos de Beijing. Mas nesta última semana, angustiado e revoltado com a horrível repressão ao levantamento anti-chinês no Tibete, com a anuência silenciosa da mãe  decidiu entrar na greve de fome que tantos outros colegas haviam já começado.
  
Ali, sentado, sentia-se poderoso, mais poderoso que nunca, desafiando orgulhosamente a presença do pai da Revolução Cultural, sepultado ali mesmo ao lado.
  
Zhang Kai foi despertado destes pensamentos pelo violento rumor de tanques e tropas, que invadiam a Praça de Tiananmen. Os estudantes unidos de um lado, e o partido do outro, firme e poderoso, mortalmente poderoso. Zhang olhou  a lua, bonita e luminosa, subindo no céu escuro, juntou as mãos de encontro ao peito e pediu ajuda a Deus...
  
Mas, a ajuda não chegou! Pelo menos, não chegou a tempo de evitar o assassínio de centenas de jovens estudantes. A repressão brutal de Li Peng, e de todo o partido que se esconde nas suas costas, reduziu-os ao silêncio mas, nos espíritos dos que sobreviveram continuam bem vivos os ideais por que lutaram naquela Primavera de 89. Hoje, mais de mil duzentos e sessenta dias depois, nos corredores das universidades chinesas, nos lares de toda a China, e nas pedras de Tiananmen continua a ecoar, silenciosamente, o hino da «Primavera de Beijing»:
Eu amo a vida, eu preciso de comer, mas prefiro morrer sem a democracia.

 Sofrer pela felicidade
Morrer pela vida
Só porque sabemos que quando os nossos
Corações deixarem de bater
Corações jovens continuarão a bater em todo
O mundo pelos sonhos que juntos partilhámos
Poema de Wu’er Kaxi, estudante chinês no exílio,
in «Fórum Estudante»

*Bèi é uma palavra chinesa que significa «sofrer».